Hora de agir: lições e desafios do BiciRio 2017

25 Sep 2017

 

A sétima edição do Fórum Internacional da Mobilidade por Bicicleta, o BiciRio, no Hotel Mar Palace, em Copacabana, teve uma conclusão importante: está na hora de agir. Muito se discute e se planeja para uma cidade mais inclusiva e amiga de quem caminha e pedala, há anos. E muito já se conquistou, mas o que fazer para obter mais resultados? Vamos a cinco pontos importantes:

 

COMO CONTER A ‘ONDA CONSERVADORA' PRÓ-CARRO?

 

Mauro Ferreira, coordenador para educação no trânsito da CET-Rio, contou uma história que parece piada. Disse ele que há quem pense, dentro da administração municipal, em aumentar o tempo de espera do sinal do pedestre em determinada via para 10 minutos, como forma de permitir maior fluxo de carros no local. Dez minutos!!! O argumento? Ah, o carioca gosta de conversar, então esperar 10 minutos para o sinal dos carros fechar seria uma ótima forma de colocar o papo em dia. Todo mundo riu, claro. Mas o episódio ilustra bem “a onda conservadora que volta a botar na pauta a priorização dos carros”, comentou Mauro.  Há uma demanda hoje, como nos anos de 1990, lembrou ele, pela tal “onda verde”, sinais que nunca fecham para motoristas. E quem caminha, não tem vez?

 

A mobilização da sociedade por mais espaço para pedestres e ciclistas é que pode mudar isso,concluíram os participantes do debate. O trabalho tem de ser o de aproximação e convencimento de legisladores e governos, além da formulação de ações verdadeiras. A lei que criou a Semana do Pedestre na cidade do Rio é um exemplo dessa parceria. Outras podem nascer a partir do Velo-City 2018, que pela primeira vez será sediado por uma cidade latino-americana, a patir de junho do ano que vem, lembraram José Lobo, da ONG Transporte Ativo; Márcio Deslandes, diretor do Velo-City Series e Políticas Globais-ECF; e Victor Andrade, coordenador do Prourbe e do Laboratório de Mobilidade (Labmob) da UFRJ.

 

 

 

“Já discutimos há anos essas questões, está na hora de agir”, disse Raphael Pazos, da Comissão de Segurança no Ciclismo do Rio, CSC-RJ. Foi um desfecho realista para os debates do BiciRio, que há sete anos levanta a pauta a favor da mobilidade e da inclusão. Agir, pressionar, mobilizar. São os desafios para os próximos capítulos. O Velo-City é uma chance de ouro. E tem que começar a deixar legado antes mesmo de ser realizado. Faltam cerca de nove meses até junho do ano que vem. Dá para nascer muita coisa boa.

 

O PEDESTRE, ESSE SER FUNDAMENTAL

 

O movimento Caminha Rio, representado numa das mesas por sua idealizadora, Tathiana Murilo, chamou a atenção para o crescimento do número de mortes de pedestres no trânsito. Números do Corpo de Bombeiros referentes a 2016 na cidade do Rio: foram 2.617 acidentes com pedestres e 91 mortes no ano. No ranking do risco, quem caminha só fica abaixo dos motociclistas, que se envolveram em 7.199 acidentes, com 112 mortes (veja quadro abaixo).

 

 

Tathiana defendeu a realização de campanhas educativas em escolas e auto-escolas, ou seja, nos pontos de origem da formação de cidadãos e motoristas. “Quem é o amigo do pedestre? Pode ser o motorista, o ciclista.... cada um tem que fazer a sua parte e respeitar o elo mais fraco da corrente”, lembrou ela, que citou a realização, pela primeira vez, desde este domingo, dia 24 de setembro, da Semana do Pedestre, criada por lei municipal (6.191/2017) aprovada em maio. A data passa a ser comemorada no município, anualmente, de 24 a 30 de setembro. Conscientizar as pessoas com campanhas massivas, eis aí uma obra concreta, que sai do blá blá blá e parte para a ação que tanto queremos.

 

CADEIRANTES TAMBÉM TÊM VEZ

 

Acessibilidade não é só para as rodas das bicicletas. Nas discussões do BiciRio foram incluídas questões de mobilidade das pessoas com necessidades especiais. Estava lá, para representar a causa, o paratleta Edson Nascimento, cadeirante, vice-campeão brasileiro de paraciclismo na categoria H3 (handbike). O Rio sediou a Paralimpíada de 2016 e, como se sabe, perdeu oportunidade gigante de tornar suas ruas, calçadas e os transportes mais amigáveis. Quando se fala de mobilidade, esse é um segmento muitas vezes esquecido – não só pelos executivos do governo como também pelos formuladores de propostas. E não pode ser assim. Segundo o IBGE, 6,2% da população brasileira têm algum tipo de limitação física, o que significa mais de 12 milhões de pessoas no país (dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2015).

 

CAMPANHAS, CAMPANHAS... MAS COM AMOR, NÃO COM ÓDIO
 

 


Em sua palestra, Tathiana Murilo foi muito feliz também ao abordar a necessidade de mais campanhas de conscientização para reduzir a violência e a intolerância no trânsito. Mas lembrou que a gente tem que ir além da “simples distribuição de panfletos por aí”. Ela deu o exemplo daquele vídeo famoso que viralizou na internet há uns quatro ou cinco anos, do agente de trânsito no Espírito Santo que orientava motoristas e pedestres com gentileza e bom humor. “As campanhas têm q ter gentileza para sensibilizar e não constranger”, disse a diretora do Caminha Rio. É isso, né? Ninguém gosta de ser chamado à atenção, mas se isso for feito com carinho, sem arrogância e agressividade, tudo fica mais fácil.

 

NO TRÂNSITO SOMOS TODOS  O QUÊ? PESSOAS!

 

O planejamento da cidade para o mais forte do trânsito, o carro, é um ponto comum entre muitas das cidades brasileiras, que não têm tratamento inclusivo, destacou Thiago Benicchio, coordenador de transportesativos do ITDP, Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento. “Muitas vezes o foco da discussão fica em cima do pedestre, do ciclista, do motorista. O foco na educação tem que ser nas pessoas”, alertou Benicchio. É tudo gente, afinal. E gente que precisa ser conscientizada para ter um comportamento adequado seja qual for o papel que estiver desempenhando no trânsito.

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