Ciclismo & Gestão: o que uma coisa tem a ver com a outra? Por José Vicente Ambrósio e Rômulo Reis


José Ambrósio durante um treino de ciclismo / Acervo Pessoal

José Vicente Ambrósio e Rômulo Meira Reis, são dois amigos que gostam de esportes e se juntaram para escrever o artigo, Ciclismo & Gestão: o que uma coisa tem a ver com a outra? Eles listaram nove tópicos da relação da bicicleta que podem ser relacionados ao universo corporativo e da gestão de negócios. Isto sem esquecer a capacidade de socialização, cuidado com a saúde e autorrealização, sendo que diversos outros atributos poderiam ser acrescentados a esta lista. O artigo pode ser lido abaixo, na íntegra.


Ciclismo & Gestão: o que uma coisa tem a ver com a outra?


Diversos brinquedos fazem parte da infância de muitos de nós e alguns nos marcam de maneira mais significativa, como a bola de futebol; uma boneca; um carrinho ou uma bicicleta.


A bicicleta, ou bike, como preferem alguns, nos remete a boas memórias da infância, brincadeiras, diversão, disputas com os amigos e aventuras para “longe” de casa. Todos se lembram com carinho da “primeira bicicleta”!


Segundo Duarte (2016) cycle vem do latim cyclus, que quer dizer círculo, roda e sua origem é controversa, mas remonta a meados do século XIX, na Europa. Os modelos como os conhecemos hoje remontam o início da década de 1880. As primeiras competições ocorreram no final dos anos 60 daquele século. O Tour de France, a mais tradicional e reconhecida prova de ciclismo de estrada, teve sua primeira edição em 1903.


Com o tempo e o amadurecimento, mudamos de “brinquedos”, mas continuamos em busca de alguma atividade que sirva como válvula de escape para as preocupações cotidianas. O esporte, como bem coloca Shank (2009) funciona como uma fonte de diversão, com a qual nos envolvemos por prazer, proporcionando contentamento. A isto, acrescentamos a capacidade de socialização, cuidado com a saúde e autorrealização, sendo que diversos outros atributos poderiam ser acrescentados a esta lista.


Neste sentido, compartilhamos com os leitores, um pouco da experiência de um dos autores com o ciclismo de estrada - modalidade esportiva que pratica desde 2015 - dividida em 9 pontos que podem ser relacionados ao universo corporativo e da gestão de negócios:


1 - Gestão de recursos


Existem basicamente dois tipos de treinos: curta duração e alta intensidade, de aproximadamente 60 minutos e treinos longos, conhecidos no meio como “longão”, que podem durar entre 3 e 6 horas ou mais, dependendo do propósito e condicionamento físico do atleta.


Em ambos os tipos, a gestão correta de energia é fundamental, mas notadamente nos treinos longos é mandatório atentar-se para uma regra elementar: para toda ida, existe uma volta. Diversos elementos do trajeto precisam ser analisados, tais como: condições climáticas, condições da pista, altimetria, quantidade de ciclistas que estarão no treino, dentre outros.


2 - Referência técnica/ Liderança


O ciclismo é um esporte bastante técnico, que requer orientação especializada, seja em função dos equipamentos, da atenção às normas de segurança e mesmo do desenvolvimento do gestual ao pedalar e como se comportar dentro de um pelotão (grupo de ciclistas pedalando em fila).


Assim, a referência de um profissional com experiência e capacidade de transmitir seu conhecimento para seus atletas representa grande diferencial para um ciclista.


3 - Preparação/ Planejamento


Cada treino, seja de curta ou longa duração, exige certa preparação e planejamento. Os pneus precisam ser calibrados antes de cada prática, atentando-se para o tipo de terreno a ser percorrido e condições climáticas. Por exemplo, caso a pista esteja molhada, é recomendável diminuir a quantidade de pressão nos pneus para maior aderência ao asfalto.


O ciclista deve providenciar a nutrição e hidratação adequadas à duração do treino, com água, isotônico, gel de carboidratos, cápsulas de sal, mini-sanduíches, paçoca, etc. É fundamental que o atleta faça testes prévios e saiba o que melhor se aplica às suas necessidades.


Infelizmente, furos de pneus são frequentes no ciclismo de estrada. Portanto, um kit de ferramentas é item obrigatório, bem como o domínio da técnica em trocar pneus.

Outro ponto bastante importante diz respeito à vestimenta, que deve oferecer em diferentes proporções, em função do nível do atleta: conforto, segurança e desempenho.

José Ambrósio e seus amigos de treino / Acervo Pessoal

4 - Trabalho em equipe


Um sábio já disse que o ciclismo é o esporte individual mais coletivo que existe. Um ciclista profissional somente irá vencer uma competição de 3 semanas, como o Giro d’Itália, Tour de France ou Vuelta a España se contar com uma equipe de alto nível técnico e gerencial.


A missão dos gregários, como são chamados os ciclistas que dão suporte ao capitão (aquele que de fato irá brigar pela vitória), é protegê-lo de eventuais riscos de quedas, manter o ritmo estabelecido previamente pelo diretor técnico e garantir o menor desgaste possível, tendo em vista os momentos decisivos da prova, que normalmente ocorrem nas duríssimas subidas de montanhas. Em resumo, são 7 ou 8 ciclistas trabalhando para que apenas um indivíduo vença e entre para a história.


5 - Autoconhecimento


Um dos aspectos fascinantes do ciclismo é o processo de autoconhecimento do próprio corpo e de seus limites. A cada treino, na medida em que vamos evoluindo, é estimulante perceber os progressos em termos de desempenho, os quais servem como estímulo para o desenvolvimento contínuo.


Também é interessante notar e aprender sobre nossas predileções e aptidões, que podem – ou não – estar relacionadas à compleição física ou meramente preferências pessoais. Há os que vibram com treinos de subidas íngremes e descidas em alta velocidade; outros preferem jornadas em terrenos planos intercalados com subidas; treinos de curta duração e grande intensidade ou endurance (treinos longos).


6 - Disciplina/ Segurança


Ciclismo é um esporte de detalhes, especialmente no que tange à segurança. Qualquer descuido pode resultar num pneu furado, um tombo ou algo mais grave, como um atropelamento ou queda de vários outros ciclistas que estejam em um pelotão.


Assim, cada treino requer – como mencionado no item 3 – planejamento e preparação sobre elementos que não podem ser esquecidos: capacete, luva, ferramentas, câmaras de ar reserva, luzes de segurança frontal e traseira, itens da vestimenta com detalhes reflexivos ou cores chamativas, documentos, contatos para casos de emergência. Tudo isso deve fazer parte de um checklist a ser feito antes de cada prática.


Em geral, e especialmente nas grandes cidades, os treinos são realizados de madrugada ou no início das manhãs, em função do trânsito, calor e atividades profissionais. Para tanto, é fundamental que o atleta se organize para desfrutar o número adequado de horas de sono, faça a nutrição correta, além – é claro – de cuidar dos demais compromissos pessoais, familiares e profissionais.


7 - Motivação


A busca pela melhoria do desempenho, superação de suas marcas ou quaisquer outros objetivos que o atleta estabeleça, podendo ser a participação em uma prova, melhoria de medidas corporais, questões estéticas, socialização, dentre outros, têm como pano de fundo um elemento intrínseco ao ser humano para realizar algo: a motivação. E para mantê-la em alta, é preciso exercitá-la com perseverança e disciplina.


Outras parcelas motivacionais virão dos companheiros de treinos, do Treinador(a), das conquistas alcançadas (e daquelas ainda sendo perseguidas), das paisagens dos percursos de cada prática, etc. É fundamental que cada atleta saiba identificar seus gatilhos motivacionais e desenvolva a capacidade de mantê-los acionados.

José Ambrósio durante uma pausa no treino / Acervo pessoal

8 - Superação dos limites


O desenvolvimento em qualquer prática esportiva implica em sair da zona de conforto; implica em buscar novos desafios; ser mais rápido, ficar mais leve, ter um equipamento melhor, subir uma montanha mais facilmente (ou com menos sofrimento...).


Neste sentido, o aspecto mental é de fundamental importância. Ao subir uma montanha como a Vista Chinesa, localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro, que conta com aproximadamente 3,5Km e grau de inclinação duríssimo, o ciclista trava o tempo todo uma batalha consigo mesmo, buscando fôlego para vencer a próxima curva e negando-se a colocar os pés no chão e empurrar a bike. Dependendo do condicionamento do atleta, são aproximadamente 30 minutos de um duelo cruel entre o corpo e a mente.


9 - Adversidades/ Gestão de Riscos


O ciclismo é um esporte duro, bruto e perigoso. Por mais que se tenha cuidados e que se faça uso de equipamentos de proteção, há diversos fatores que não podem ser controlados pelo ciclista, como o trânsito, falhas mecânicas ou intempéries, que podem ocasionar acidentes.


Uma das máximas do ciclismo é: “existem dois tipos de ciclistas, os que já caíram e os que ainda vão cair”. É importante que se tenha em mente os riscos deste esporte, saiba avaliá-los e tome as medidas preventivas cabíveis, não significando isto pedalar com medo, mas com o devido respeito a seus limites e circunstâncias incontroláveis.


“E então há acidentes, parte do ciclismo como chorar é parte do amor.”

Johan Museeuw


SOBRE OS AUTORES


José Vicente Ambrósio: Mestre em Administração de Empresas, Professor e Pesquisador de Gestão Esportiva, especialista sênior em Ticketing e um ciclista amador que leva o esporte a sério.





Rômulo Reis: Doutor em Ciência do Exercício e Esporte; Professor e Pesquisador de Gestão Esportiva e profissional do Depto. de Competições da CBF.


REFERÊNCIAS


DUARTE, O. História dos esportes. 6. ed. São Paulo: SENAC São Paulo, 2016.


SHANK, M. D. Sports marketing: a strategic perspective. Upper Saddle River, NJ, EUA: Pearson Prentice Hall, 2009.

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